Educação, para o bem da nação
As recentes demonstrações de desagrado sobre o status quo economico-politico-social de Portugal (a chamada "Geração à Rasca" e consequente Fórum das Gerações) levaram-me a reflectir um pouco sobre algumas das razões de fundo subjacentes.
A camada jovem que se manifestou centra-se — ipsis verbis, de acordo com o seu manifesto — nos "desempregados, "quinhentoseuristas" e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal."
Pois bem. Uma boa porção das pessoas enquadradas neste perfil reclama por não ter trabalho ou por ser precário, apesar de ter educação superior. Uma análise mais detalhada aos números oficiais do ministério (PDF) revela alguns dados interessantes para este ensaio (números de 2000-2009):
- Das diferentes áreas de educação e formação, 34% das vagas disponíveis dizem respeito a Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção, Ciências, Matemática e Informática. Assim, as 66% restantes incluem Ciências Sociais, Comércio e Direito, Artes e Humanidades, Educação, entre outros. É este o panorama de escolhas oferecido pelo mercado do ensino universitário;
- Olhando para as preferências no ingresso, verifica-se uma redução para 27% nas áreas de Engenharias e Ciências. Como termo comparativo, só a área de Ciências Sociais, Comércio e Direito é preferida por 31% dos nossos futuros licenciados. É este o panorama preferencial dos nossos jovens.
Esta visão macroscópica mostra a realidade em que vive esta geração à rasca: a aposta nas áreas de conhecimento científico e tecnológico tem sido insuficiente, quer do ponto da oferta, como da procura. Já foi debatido e demonstrado vezes sem conta que esta aposta é essencial para a sustentabilidade e relevância de qualquer país no panorama mundial, i.e., na produção de riqueza.
O que terá levado a que a última década de ingressos no ensino superior não tenha tido marcada por uma aposta forte nas ciências e tecnologias? A teoria que eu apoio centra-se em 3 visões altamente interligadas:
- Ilusões: A geração de 60 viveu tempos em que um "canudo" era garantia de empregabilidade. Sendo estes, na sua grande maioria, progenitores da geração à rasca, esta ideia continuou a ser transmitida e activamente fomentada. A democratização do acesso ao ensino superior resultou, assim, na diluição desta garantia — tornou-se uma ilusão. Tendo em conta as preferências no ingresso apontadas acima e as necessidades de qualquer mercado de um país desenvolvido (e.g., não somos uma sociedade tão litigiosa que precise de tantos advogados formados por ano, presumo eu), resulta na fraca empregabilidade de uma grande fatia dos licenciados. Os tais à rasca;
- Facilitismos: Muitos dos à rasca optaram por vertentes no ensino secundário em que o raciocínio e espírito critico inerentes às ciências e tecnologias foram delegados para segundo plano. Um exemplo paradigmático: a criação das disciplinas B, e.g., Matemática B, Português B. Por exemplo, indo para agrupamentos não científicos, um aluno no ensino secundário pode ver-se na situação de lhe ser limitada a aprendizagem de conceitos fundamentais — e.g., abstracção matemática — que o empurrará para o ensino superior de índole não científica. E, claro está, não raciocinar é mais fácil. Dá menos trabalho;
- Nhurrices: O objectivo de um curso superior é aprender a pensar; a compreender problemas e encontrar soluções. É criar a capacidade de análise/crítica, de abstracção e indução. Assim, seria de esperar que qualquer aluno saído de um curso superior fosse capaz de aplicar este conhecimento noutro qualquer domínio da sociedade. [ed. vide o modelo de ensino superior nos EUA, para perceber que isto existe — e funciona]. Mas não, um licenciado em Direito quer ser advogado a todo o custo, para o resto da vida. Se for o melhor de todos, certamente conseguirá. Mas na maioria das vezes, resignar-se-á.
Estas três visões revelam que são antecedentes perigosos para que haja uma educação mais científica, mais tecnológica, mais cimentada e próspera no nosso país. Honestamente, não acredito que uma sociedade centrada em advogados e sociólogos possa vir a ser próspera. Assim, temos uma geração à rasca, à espera de soluções. Está aqui demonstrado que há culpas em todas as vertentes: educadores, pais, legisladores, juventude.
Se houvesse hoje uma alteração das políticas e estratégias para a educação, fomentando assim uma maior cultura científica e tecnológica, poderíamos ter resultados a médio prazo, i.e., 10 anos. Portanto, no melhor caso, esta geração à rasca vai perdurar ainda por pelo menos uma década. Provavelmente — e infelizmente — muito mais do que isso.
Assim, enquanto este status quo não muda, proponho aos pais mais diligentes que apostem fortemente numa educação científica e tecnológica para os seus filhos. Mostrem-lhes a Khan Academy, comprem-lhes LEGO, metam-nos a criar programas de computador. No pior caso, divertir-se-ão e aprenderão. No melhor, serão os líderes do amanhã.